Em Brejetuba, a palha de café que seria descartada virou insumo para produzir biocarvão. A solução melhora a produtividade e mantém carbono preso no solo por muito tempo.
A NetZero usa pirólise para transformar o resíduo em biochar, um carvão vegetal estável e poroso. Com ele, o solo retém mais água e aproveita melhor os fertilizantes.
O avanço já chega a lavouras do Espírito Santo e de Minas Gerais, com resultados no campo e metas climáticas ambiciosas, conforme informações divulgadas pela NetZero.
Como o biocarvão é produzido em Brejetuba
O processo começa com a palha de café armazenada e levada aos reatores. Lá, o material é aquecido sem oxigênio, o que evita a queima e concentra o carbono no biocarvão.
Segundo a produção, a palha passa por 600 a 700 graus e se converte em biochar, que retorna ao produtor para aplicação no cafezal. A operação é contínua e de baixo resíduo.
Thennyson Afonso detalha, “O resultado é o biochar, que depois retorna ao produtor para aplicação na lavoura.” Ele reforça que o material sai pronto para uso no campo.
Pedro de Figueiredo explica o ganho climático, “Esse carbono fica retido por milhares ou até milhões de anos na natureza”. O efeito evita emissões e melhora o balanço de carbono.
O CEO resume a lógica circular, “E esse círculo é o círculo virtuoso.” A transformação de resíduo em insumo cria ganhos agronômicos e ambientais na mesma cadeia.
Mais água no solo, menos perda do cafezal
Para Mateus Hastenreiter, o efeito-chave é a retenção de água. Ele afirma, “O principal é a retenção de água: o biochar consegue reter de três a cinco vezes o peso dele.”
Na prática, 1 kg de biocarvão pode reter 3 a 5 litros de água no solo. O poro do material favorece micro-organismos e melhora a disponibilidade de fósforo.
O produtor Adriano Belisário testou o insumo em uma seca de 50 dias. Sem biocarvão, a mortalidade passou de 30%. Com o produto, “não chegou a 5% de perda.”
O biochar também ajuda a reduzir perdas de nitrogênio por volatilização e aumenta a eficiência da adubação. O resultado aparece em mudas mais vigorosas e uniformes.
Após a pirólise, o material é umedecido. Thennyson destaca, “Ele recebe aproximadamente 70% de umidade de água.” A umidade auxilia no estabelecimento das plantas.
Escala industrial e metas climáticas
A unidade de Brejetuba produz 3.700 toneladas de biocarvão por ano, com capacidade para 4.000 toneladas. O volume atende lavouras e acelera a adoção no campo.
No Brasil, a empresa opera em Lajinha, São João do Manhuaçu, Paraguaçu e Brejetuba. Em Campina Verde, ergue a primeira usina dedicada a transformar todos os resíduos da cana em biochar.
A NetZero informa que já removeu cerca de 10 mil toneladas de CO₂ de forma permanente e mira 5 milhões de toneladas até 2030, com foco em crédito de carbono de alta integridade.
A tecnologia aceita diferentes biomassas. Afonso reforça, “Podemos usar qualquer biomassa: casca de cana-de-açúcar, coco, cacau… todas têm potencial.” Isso amplia a escala com resíduos locais.
ES quer liderar café de baixo carbono
Pedro de Figueiredo projeta ganhos no campo, “Temos convicção de que a produtividade pode aumentar entre 20% e 40%.” O biocarvão agrega valor à origem do café.
Ele vê o Espírito Santo como vitrine do modelo, com sequestro de carbono e qualidade. O estado pode se tornar polo de café de baixo carbono, com rastreabilidade e impacto.
A estratégia inclui construir 50 novas fábricas no ES e ampliar parcerias. Hoje, mais de 1.500 produtores participam de programas do biocarvão em biomas da Amazônia ao Cerrado.
Segundo Hastenreiter, o biochar é de aplicação única, fica no solo por toda a vida. Isso reduz custos, corta uso de fertilizantes e estabiliza a produtividade ao longo das safras.
O método parte do ciclo natural. “Quando a planta produz o fruto, ela absorve CO₂ e libera oxigênio”, explica Figueiredo. A pirólise evita que esse carbono retorne à atmosfera.
Com os reatores em operação e a rede de produtores crescendo, o biocarvão consolida um caminho de economia, resiliência hídrica e baixas emissões na cafeicultura brasileira.